Nota Breve

Podia ter chamado este blog "Reflexões de uma luso-americana"; escolhi "Mensagem numa garrafa" por desconhecer o destino das minhas palavras e o impacto que estas terão. Será escrito nas versões de português de Portugal (pelos menos da maneira que me recordo) e de inglês americano.

This blog could have been named "Musings of a Portuguese-American"; I chose "Message in a Bottle" as I will never know who my words will reach and the impact they'll have on all those strangers. It is being written in American English, as well as in Portuguese from Portugal.

21 de fevereiro de 2016

Encantamento Trump



O meu desdém por Donald Trump tem-me impedido de apreciar o serviço público que este senhor (com um “s” bem minúsculo) tem feito: o de expor (ainda que involuntariamente) toda a intolerância, ignorância e hipocrisia entranhada na alma de tantos dos meus concidadãos.

Mas também percebo o fascínio - até um certo ponto. O povo americano está FARTO! Farto das politiquices do costume, farto de trabalhar como um louco para receber cada vez menos, farto de mentiras e falsas promessas. As pessoas vêem-se obrigadas a apresentarem uma atitude positiva e semblante prazenteiro ao público, enquanto o mundo privado de muito boa gente desmorona: cada vez mais stress, ansiedade, divórcios, toxicodependência - álcool, medicamentos, opiáceos.

Ninguém no Partido Republicano o impede de dizer seja lá o que for. Ele é suficientemente rico para não precisar deles. Ele insulta tudo e todos, não discrimina quanto a isso, e não está financeiramente dependente de nenhum grupo com agenda própria. O homem não tem, portanto, nada a perder. E aí, a meu ver, reside a atracção. Aliás, tenho ouvido muitas das pessoas encantadas com o senhor Trump dizer precisamente isso, “He says what a lot of us are thinking.” O facto de que a grande maioria do que sai da boca da criatura não passarem de baboseiradas parece despercebido a um sector substancial da população. 

E é precisamente por não ter nada a perder que francamente acho que se está nas tintas se não ganhar  as eleições. Este homem é um narcisista da pior categoria, deprivado de uma gota que seja de humildade. Mas é muito esperto, e sabe-se aproveitar dos medos e frustações do eleitorado.  Eu acho que o que ele vende mais é a sua postura belicosa, um espelho do que se passa dentro da alma de tantos americanos. Eu acho que se muitos dos admiradores do senhor Trump pusessem os seus medos e ira de lado para pensarem nas consequências desastrosas para os Estados Unidos e para o Mundo das políticas que este sujeito advoga, que ele não teria o sucesso que tem tido até aqui.

E depois, há isto:

A rebelião da classe social ansiosa



Primeiro os factos:
1-) De acordo com o Pew Research Center, a classe média americana está a diminuir e a probabilidade de caírem na pobreza é assustadoramente alta, sobretudo para a maioria sem formação universitária.
2-) Dois terços da população trabalhadora americana vive de salário a salário, podendo a maioria perder os seus empregos a qualquer momento. Em Portugal, onde isto é mal visto, chamam-lhe "trabalho precário"; nos E.U.A. chama-se "employment at will" (por as pessoas se poderem despedir ou ser despedidas sem justa causa e a qualquer momento) e é bem visto.
3-) Muitos pertencem a um número cada vez maior de trabalhadores "on-demand", trabalhando consoante as necessidades do empregador, sem benesses, ordenado fixo, ou horas fixas; por outras palavras, sem contractos nem garantias. 
4-) Um número obsceno tem dois ou três trabalhos para conseguir pagar a renda ou a hipoteca da casa, o(s) carro(s), a mercearia, as propinas dos filhos universitários.
5-) A maioria das pessoas que perdem os seus empregos nem sequer se qualificam para o fundo de desemprego.
6-) A hipótese de um americano ser morto por um jihadista em solo americano é muito menor do que desse mesmo americano se suicidar com uma arma de fogo, porém, por não ser suficientemente sensacionalista, não é esta a mensagem que a comunicação social normalmente passa ao público.
7-) Esta classe ansiosa protege-se a sim própria comprando armas de fogo a índices nunca vistos.

Agora o meu parecer:
Os americanos da classe média andam stressados, e este stress já está a ter repercussões. Muitos são os que tomam antidepressivos, ansiolíticos  e comprimidos para dormir mas, pior ainda, que se suicidam e envenenam  com drogas e álcool. O resultado trágico de tudo isto é o facto de, pela primeira vez na história, a esperança de vida da população branca da classe média estar a diminuir

Conheço muitos americanos da classe média endividados até à raiz dos cabelos, todos com “smart phones” para a família inteira, bons carros e o último modelo de televisão com um ecrã quanto maior melhor – é tudo uma questão de mentalidades e prioridades; a meu ver, tanto bem material não passa de uma mera cortina de fumo ou, como se dizia em Portugal no meu tempo, isto é tudo para inglês ver.

A classe média americana é hoje uma classe ansiosa - e está em revoltada. Andam assustados e com os nervos à flor da pele, revoltam-se uns contra os outros e, sobretudo, contra tudo o que é diferente e fora das suas zonas de conforto. Tanta ansiedade, desconfiança e medo torna-os vulneráveis… e alvos muito fáceis de certas figuras inescrupulosas e poderosas (sejam patrões ou políticos), que se aproveitam de tanta instabilidade emocional para reforçar ainda mais o controle sobre os seus súbditos – e no meio disto tudo, é este o efeito secundário que mais temo.

Ensinou-nas a História que já muitas ditaduras começaram com estes precisos ingredientes.
 

12 de fevereiro de 2016

Someone to watch over me, by Willie Nelson

For dancing with that very special person in your life.

O amor não tem porquê



Somos cantores desta terra lusitana
Temos cantigas de beleza sem igual
Alegremente com paixão vamos tocando
As melodias que encantam Portugal.
Coimbra tem as serenatas verdadeiras
De flores rubras está coberto o litoral
Verdes os campos, verdes são as oliveiras
As duas cores da bandeira nacional.
E o brilho do teu mar é um encanto
Porquê, porquê se maravilha quem te vê
Ai Portugal porque te quero tanto
Não vou saber pois o amor não tem porquê.

O Poder, os políticos, a meritocracia e a humanidade



Na mão de uma pessoa boa, o poder é uma bênção. Na mão de uma pessoa inconsciente, o poder pode-se tornar uma maldição, uma verdadeira praga. Não é, portanto, o poder que deve ser vilipendiado, mas sim os motivos nojentos por detrás dos quais determinadas pessoas se escondem.

Um certo sábio disse uma vez que só o desejo de se tornar um político devia ser o suficiente para desqualificar qualquer pessoa de o fazer – isto apesar das mais diversas sociedades ocidentais se basearem em sistemas de governo impossíveis de funcionar sem políticos. O que é que, aparentemente, desumaniza os políticos, e haverá uma outra maneira de governar?

Porque é que o mundo parece ser governado por pessoas medíocres, quando este mesmo mundo está repleto de todos os tipos de pessoas sensíveis, criativas e inteligentes (cientistas, artistas, músicos, poetas, dançarinos, pintores) que, ao contrário das classes governantes, podiam muito bem alterar a história da humanidade, tornando as trevas do futuro num belo nascer do sol?

E se elegêssemos os nossos governantes tendo em conta o mérito e valor de cada um, em vez de cairmos nas tretas, aldrabices e promessas falsas do costume? Idealista? Simplista? Utopia? 

Foi para o que me deu...em plena campanha eleitoral.

"You develop and instant global consciousness, a people orientation, an intense dissatisfaction with the state of the world, and a compulsion to do something about it. From out there on the moon, international politics look so petty. You want to drag a politician by the scruff of the neck and drag him a quarter of a million miles out and say, 'Look at that, you son of a bitch!'" -- Edgar Mitchell, Apollo 14 Astronaut.

Estou FARTA de tanta nojice!